Contexto da Atividade

A propósito da Educação Aberta e do seu contributo para o Bem Comum, importa identificar iniciativas concretas que materializem os princípios dos 5R propostos por David Wiley: Reter, Reutilizar, Rever, Remixar e Redistribuir. Estes cinco direitos constituem a essência dos Recursos Educacionais Abertos (REA), diferenciando-os de materiais meramente disponíveis gratuitamente online, mas sem permissões legais explícitas para adaptação e partilha (Wiley, citado em Creative Commons, 2017).

Apresento três casos internacionais documentados que ilustram como as práticas educacionais abertas reduzem barreiras sistémicas ao conhecimento e promovem equidade global.


CASO 1 | OpenStax: Redefinir a Economia dos Materiais Didáticos

Génese e Missão

Lançado pela Rice University em 2012, o OpenStax nasceu de uma constatação alarmante: o custo dos manuais escolares constituía uma barreira inaceitável ao sucesso académico (OpenStax, 2020). Quando um único manual podia custar 300 dólares, crescia o número de estudantes que simplesmente renunciavam aos materiais obrigatórios por impossibilidade económica.

Modelo de Operação

O OpenStax produz manuais académicos revistos por pares, licenciados abertamente, disponibilizados gratuitamente em formato digital e a baixo custo em versão impressa. A biblioteca digital conta atualmente com mais de 80 títulos que abrangem ciências, matemática, ciências sociais, gestão e humanidades.​

Dados de Impacto Verificáveis

Os números documentam uma transformação estrutural no mercado editorial educativo:

Alcance global (2025):

  • 43,3 milhões de estudantes beneficiados em 169 países
  • Utilização em 72% das instituições de ensino superior dos EUA
  • Expansão ao ensino K-12, atingindo 1,7 milhões de estudantes

Impacto económico acumulado:

  • Poupança total: 3,4 mil milhões de dólares desde 2012
  • Este valor triplicou em apenas quatro anos (de 2020 a 2024)

Transformação sistémica:
O OpenStax não se limitou a criar alternativas; contribuiu para uma disrupção positiva que forçou a descida generalizada dos preços dos manuais comerciais (OpenStax, 2020).

Testemunhos Documentados

Veronica Mucciarone, estudante do Northern Virginia Community College, sintetiza o impacto individual: “Ter acesso gratuito e ilimitado ao manual de química geral poupou-me centenas de dólares, e posso continuar a consultar os tópicos nos próximos anos porque não tive de devolver o livro. Estou incrivelmente grata”.

Connie Taylor, que não frequentava aulas de matemática há duas décadas e desejava preparar-se para um mestrado em estatística, encontrou no OpenStax os recursos de álgebra e trigonometria que a sua biblioteca local não possuía.

Cumprimento dos 5R de Wiley

Todos os manuais OpenStax são licenciados através de Creative Commons, permitindo:

  • Reter: descarregamento permanente sem restrições temporais
  • Reutilizar: aplicação em contextos diversos de ensino formal e autoaprendizagem
  • Rever: adaptação de conteúdos às necessidades pedagógicas específicas
  • Remixar: combinação com outros materiais educativos
  • Redistribuir: partilha legal com estudantes, colegas e comunidades

CASO 2 | Khan Academy: Democratização através da Personalização

Arquitetura da Iniciativa

Fundada por Sal Khan em 2008 com o propósito declarado de “proporcionar educação gratuita de classe mundial a qualquer pessoa, em qualquer lugar”, a Khan Academy opera como organização sem fins lucrativos focada na acessibilidade e inclusão (Khan Academy, citado em Literal Humans, 2024).

A plataforma disponibiliza currículos gratuitos desde o pré-escolar até ao ensino universitário, traduzidos em mais de 50 idiomas.

Indicadores de Alcance (2025)

Dimensão global:

  • 120 milhões de estudantes utilizam anualmente a plataforma
  • 13,7 milhões de novos utilizadores registados em 2025
  • Presença em 190 países
  • 30 milhões de visitas mensais ao website

Envolvimento familiar e docente (2022-2025):

  • 718.000 encarregados de educação ativos
  • 490.000 novos professores integrados

Tempo de aprendizagem:

  • 7,7 mil milhões de minutos acumulados em 2025
  • 1,2 mil milhões de minutos apenas na Khan Academy Kids

Fatores de Sucesso Documentados

Conteúdo multilingue:
A oferta em dezenas de línguas aumenta drasticamente a acessibilidade, contribuindo para a utilização global e o sucesso transnacional da iniciativa.

Fórum comunitário:
Estudantes podem colocar questões e obter apoio de pares, criando um ambiente colaborativo de aprendizagem que transcende a mera disponibilização de conteúdos.

Modelo sustentável:
Com receitas anuais superiores a 221,5 milhões de dólares provenientes de doações e parcerias, a Khan Academy demonstra que é possível financiar educação aberta de qualidade sem recorrer a modelos de negócio baseados em cobrança aos utilizadores.

Conformidade com os Critérios 5R

A Khan Academy licencia os seus recursos sob Creative Commons (tipicamente CC BY-NC-SA), garantindo:

  • Reter: materiais permanentemente acessíveis aos utilizadores registados
  • Reutilizar: professores incorporam vídeos e exercícios nas suas práticas pedagógicas
  • Rever: possibilidade de tradução e adaptação cultural dos conteúdos
  • Remixar: integração com outros recursos educacionais em contextos formais e informais
  • Redistribuir: partilha legal mediante atribuição e respeito pela licença não-comercial

CASO 3 | P2PU: Comunidades Locais, Conhecimento Aberto

Conceito e Evolução

A Peer-to-Peer University (P2PU), fundada em 2008, representa uma abordagem distintiva à educação aberta: combina REA com metodologias de aprendizagem entre pares em espaços públicos (P2PU, 2017).

Em 2015, a organização lançou o modelo “Learning Circles” — grupos de estudo presenciais, gratuitos, facilitados em bibliotecas e centros comunitários, nos quais participantes trabalham colaborativamente cursos online (frequentemente MOOCs).​

Modelo de Implementação

Entre 2015 e 2017, a P2PU testou Learning Circles em Chicago e Nairobi para validar o conceito: acreditavam existir um caminho para experiências de aprendizagem acessíveis e de qualidade através do emparelhamento de materiais educacionais abertos com práticas de aprendizagem entre pares.

O entusiasmo universal observado nos pilotos iniciais conduziu ao lançamento público do modelo em 2016.

Resultados Mensuráveis

Participação documentada (até 2017):

  • 394 Learning Circles criados
  • Aproximadamente 4.000 estudantes envolvidos
  • 14.000 instâncias individuais de participação (cada vez que alguém se deslocou à biblioteca para estudar com os vizinhos)

Distribuição geográfica:
Learning Circles realizaram-se em mais de 100 cidades em seis países: Estados Unidos, Canadá, Quénia, Uganda, França e Alemanha.

Caso exemplar: Quénia:
O Kenya National Library Service facilitou 89 Learning Circles em 18 meses, alcançando 900 jovens e adultos.

Impactos Não Antecipados

A avaliação revelou resultados que os facilitadores não esperavam inicialmente:

  • Ganhos significativos em literacia digital simplesmente pelo processo de navegação em cursos online
  • Desenvolvimento de competências de colaboração e cidadania local
  • Criação de redes de suporte comunitário que transcendiam os objetivos de aprendizagem formais

Escalabilidade e Expansão

O modelo Learning Circles demonstrou flexibilidade de aplicação em diversos contextos: centros de aprendizagem de línguas, centros de literacia e programas de equivalência escolar (GED). Entre 2017 e o presente, expandiu-se para bibliotecas na Dinamarca, Uganda, Zâmbia e Colúmbia Britânica.

Aplicação dos 5R

O modelo P2PU assenta integralmente em REA com licenciamento aberto:

  • Reter: os cursos utilizados nos Learning Circles (frequentemente MOOCs abertos) permanecem acessíveis aos participantes após as sessões
  • Reutilizar: bibliotecários adaptam o modelo a contextos locais específicos
  • Rever: facilitadores modificam materiais para adequar ao nível dos grupos
  • Remixar: combinação de recursos de diferentes plataformas num único Learning Circle
  • Redistribuir: o próprio toolkit do P2PU é open-source, permitindo que qualquer comunidade o implemente

Reflexão Transversal: Educação Aberta como Infraestrutura do Bem Comum

Três Modelos, Uma Filosofia

Embora operem em escalas e contextos distintos, estas três iniciativas partilham princípios estruturantes:

1. Gratuidade como condição de equidade

OpenStax articula-o explicitamente: “Gratuito é o único preço que funciona para nivelar o campo de jogo para todos os estudantes” (Daniel Williamson, citado em OpenStax, 2020). Quando estudantes precisam escolher entre comprar livros ou pagar alimentação e habitação, a gratuidade deixa de ser opcional — torna-se imperativo ético.

2. Licenciamento aberto como fundamento legal

Cable Green, da Creative Commons, clarifica: “Se um recurso educacional não está claramente marcado como domínio público ou licenciado abertamente, não é um REA” (Green, 2017). Disponibilizar gratuitamente não basta; é necessário conceder explicitamente as permissões legais que caracterizam os 5R.

3. Tecnologia ao serviço da pedagogia (não o inverso)

O P2PU demonstra que tecnologia não substitui comunidade; deve potenciá-la. Learning Circles não eliminam o encontro presencial — utilizam recursos digitais abertos para enriquecer a aprendizagem colaborativa local.

Da Caridade à Justiça

Michael Saylor, fundador da Saylor Academy, sintetiza a transformação necessária: “Para satisfazer a crescente necessidade mundial de aprendizagem, o custo por unidade educacional tem de baixar drasticamente e a capacidade tem de aumentar exponencialmente. O mundo não precisa de 100.000 professores de álgebra; precisamos de um professor realmente bom cuja docência seja automatizada e manifestada em software que forneça educação em álgebra aos próximos 10 mil milhões de pessoas” (Saylor, citado em Ritter, 2017).

Esta visão, embora controversa, aponta para uma realidade: sistemas educativos tradicionais não conseguem escalar para satisfazer necessidades globais sem transformação radical nos modelos de produção e distribuição de conhecimento.

Políticas Públicas e Educação Aberta

A Creative Commons defende políticas de licenciamento aberto que tornem obrigatória a abertura dos recursos educacionais financiados com dinheiros públicos (Green, 2017). O argumento é cristalino: se o público paga pela criação de recursos educacionais, o público deve ter direito a aceder e utilizar esses recursos sem custos adicionais e com o espectro completo de direitos legais necessários para realizar as atividades 5R.

Esta abordagem política transforma educação aberta de iniciativa filantrópica em infraestrutura pública, à semelhança de estradas, bibliotecas ou sistemas de saúde.


Referências Bibliográficas

OpenStax

OpenStax. (2020, 31 de agosto). OpenStax surpasses $1 billion in textbook savings, with wide-ranging impact on teaching, learning and student success. Rice University News & Media. https://news2.rice.edu/2020/08/31/openstax-surpasses-1-billion-in-textbook-savings-with-wide-ranging-impact-on-teaching-learning-and-student-success/

OpenStax. (2025, 5 de outubro). OpenStax surpasses $3B in student savings, grows beyond textbooks. Rice University News & Media. https://news.rice.edu/news/2025/openstax-surpasses-3b-student-savings-grows-beyond-textbooks

Khan Academy

ElectroIQ. (2025, 14 de maio). Khan Academy Statistics And Facts (2025)https://electroiq.com/stats/khan-academy-statistics/

Literal Humans. (2024, 11 de abril). How Khan Academy Created a Global Communityhttps://literalhumans.com/khan-academy-marketing-teardown/

P2PU (Peer-to-Peer University)

Siegel Family Endowment. (2025, 20 de janeiro). Leadership Q&A: P2PU reflects on the growth of its open source learning communitieshttps://www.siegelendowment.org/insights/ed-qa-p2pu-reflects-on-the-growth-of-its-open-source-learning-communities/

Schmidt, P., & Kiy, N. (2017). Peer-to-peer learning with Open Educational Resources: An interview with P2PU. Association for the Advancement of Computing in Education (AACE) Review. https://aace.org/review/peer-to-peer-learning-with-open-educational-resources-an-interview-with-p2pu/

Shuttleworth Foundation. (2017, 18 de dezembro). Philipp Schmidt & P2PU: Community-Driven Learninghttps://www.shuttleworthfoundation.org/thinking/2017/12/18/thinking-philipp-schmidt-p2pu/

Creative Commons e Educação Aberta

Creative Commons. (2017, 4 de junho). Open Licensing and Open Education Licensing Policyhttps://creativecommons.org/2017/06/05/open-education/

Creative Commons. (2025, 28 de abril). Open Educationhttps://creativecommons.org/about/education/

Green, C. (2017). Open Licensing and Open Education Licensing Policy. In R. Jhangiani & R. Biswas-Diener (Eds.), Open: The Philosophy and Practices that are Revolutionizing Education and Science. Creative Commons.

Saylor Academy

Ritter, D. (2017, 14 de julho). How open courses are slashing the cost of higher education [Entrevista]. Opensource.com. https://opensource.com/article/17/7/college-alternatives

Wikipedia. (2011, 29 de setembro). Saylor Academyhttps://en.wikipedia.org/wiki/Saylor_Academy

OERu e Outras Iniciativas

OER Foundation. (2020, 30 de junho). Open Education Resource universitas (OERu)https://oerfoundation.org/initiatives/oeru/

OER Foundation. (s.d.). Join our international partnershiphttps://oerfoundation.org/become-an-oeru-partner/

Publicado por Sérgio Trigo

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