Educação e Sociedade em Rede

E se a IA for apenas mais um de nós?

Uma reflexão sobre inteligência coletiva e coautoria na era generativa

Há uma pergunta que me tem acompanhado desde que começámos a discutir, na Atividade 6 de Educação e Sociedade em Rede, a elaboração de um código de boas práticas para o uso de IA generativa na aprendizagem. A pergunta é esta: e se estivermos a colocar o problema de forma errada?

Explico-me.

O enquadramento dominante

A maioria das discussões sobre IA na educação (e o nosso fórum não foi exceção) tende a organizar-se em torno de uma oposição implícita: de um lado, o estudante (humano, autêntico, autor); do outro, a máquina (artificial, simulacro, ameaça). A partir desta oposição, o debate centra-se em onde traçar a fronteira: que usos permitir, que usos proibir, como detetar, como sancionar.

Não digo que estas questões sejam irrelevantes. Mas pergunto-me se não estaremos a assumir como dado precisamente aquilo que deveria ser interrogado: a ideia de que existe uma separação nítida entre o pensamento “próprio” e o pensamento “assistido”, entre a autoria “genuína” e a autoria “contaminada”.

Uma memória de Lévy

Enquanto preparava a minha intervenção no fórum, voltei a um autor que trabalhámos no início do semestre e que, confesso, não tinha relido desde então: Pierre Lévy. Em Cibercultura, Lévy desenvolve o conceito de inteligência coletiva: a ideia de que a cognição não reside apenas nas cabeças individuais, mas distribui-se por redes de pessoas, artefactos e práticas.

Para Lévy, o ciberespaço é o “suporte técnico privilegiado” desta inteligência distribuída. Não a substitui, não a ameaça: potencia-a. Quando participamos num fórum, quando consultamos uma base de dados, quando colaboramos num documento partilhado, estamos a pensar com e através de uma rede que nos excede.

Reler Lévy em 2025, com o ChatGPT e o Claude à distância de um clique, foi uma experiência curiosa. Por um lado, muito do que ele antecipou concretizou-se de formas que provavelmente nem ele imaginava. Por outro, o seu enquadramento oferece uma alternativa ao pânico moral que tantas vezes domina as discussões sobre IA.

E se, em vez de vermos a IA como intrusa num processo que deveria ser “puramente humano”, a víssemos como mais um nó na rede de recursos cognitivos que sempre usámos para pensar?

O que muda e o que permanece

Não quero ser ingénuo. Alguma coisa muda com a IA generativa, e essa mudança merece atenção.

O que muda, creio eu, é a escala e a velocidade. Sempre pensámos com outros – com livros, com professores, com colegas. Mas o tempo que mediava essas interações criava espaço para digestão, para apropriação, para transformação. Quando a resposta chega em dois segundos, esse espaço comprime-se. O risco não é que a IA pense por nós; é que nos habituemos a não tolerar o desconforto do não-saber, a exigir respostas antes de termos formulado bem as perguntas.

Chamei a isto, no fórum, o risco da “delegação cognitiva prematura”. A expressão é minha, mas a ideia não é nova. É o velho problema pedagógico de sempre, agravado: como garantir que o atalho não elimina precisamente o percurso onde a aprendizagem acontece?

Um exemplo ajuda a clarificar. Quando era miúdo e aprendia música, o meu professor insistia que afinasse o violão de ouvido antes de recorrer ao afinador eletrónico. Não porque o afinador fosse batota, era apenas uma ferramenta. Mas porque o objetivo não era ter o instrumento afinado; era desenvolver o ouvido. Se usasse o afinador antes de ter treinado a escuta, poupava tempo, mas perdia o essencial.

A IA generativa pode ser o afinador eletrónico da escrita e do pensamento. Útil em certos momentos, contraproducente noutros. O critério não é “usou ou não usou”; é “usou de forma que desenvolveu ou que atrofiou a competência que precisava de desenvolver?”

Autoria como orquestração

No fórum, a Raquel propôs uma distinção que me pareceu fértil: entre uma “ética da originalidade” e uma “ética da responsabilidade”. Gostei da formulação, mas quis acrescentar-lhe um terceiro termo: uma ética da coautoria.

A ideia é simples, embora as suas implicações não o sejam. Se o pensamento é sempre, em alguma medida, distribuído (se pensamos com e através de outros, de textos, de ferramentas, de conversas) então a autoria não é uma questão de origem. Ninguém pensa sozinho, do zero, sem dívidas. A autoria é, antes, uma questão de orquestração: quem coordena, quem seleciona, quem articula, quem assume responsabilidade pelo resultado.

Deste ponto de vista, usar IA generativa não é necessariamente menos “autoral” do que usar uma biblioteca, um orientador ou um grupo de estudo. O que define a autoria não é a pureza da génese, mas a capacidade de responder pelo produto. Consegues explicar as escolhas que fizeste? Sabes defender o argumento perante objeções? Compreendes as limitações do que escreveste? Se sim, és autor, independentemente de quantas ferramentas usaste no caminho.

Esta perspetiva desloca o foco da vigilância para a formação. Em vez de gastar energia a detetar quem usou IA (tarefa cada vez mais quixotesca, diga-se), investimos em desenvolver nos estudantes a capacidade de usar qualquer recurso (incluindo a IA) de forma crítica e apropriada.

O que propus no fórum

No debate com os colegas, avancei três orientações que me pareceram poder complementar as que já tinham sido propostas.

A primeira foi a distinção entre uso exploratório e uso substitutivo. Usar a IA para explorar hipóteses, testar formulações, identificar ângulos que não tínhamos considerado pode ser pedagogicamente rico. Usar a IA para evitar o trabalho de pensar é pedagogicamente estéril. A fronteira nem sempre é nítida, depende do contexto e da intenção, mas a distinção parece-me operativa.

A segunda foi a valorização da metacognição. Mais importante do que saber se o estudante usou IA é saber se ele é capaz de refletir sobre esse uso. Que perguntas fez? Que respostas descartou? O que aprendeu com o processo? Esta camada metacognitiva tem valor formativo próprio e transforma o uso da IA de potencial atalho em oportunidade de aprendizagem.

A terceira foi a promoção da literacia crítica sobre os sistemas de IA. Os estudantes precisam de compreender, mesmo que em termos gerais, o que são estes sistemas: modelos estatísticos treinados em grandes quantidades de texto, que identificam padrões e geram continuações prováveis, que podem produzir informação falsa com aparência convincente, que não “compreendem” no sentido humano. Sem esta literacia, o uso crítico é impossível.

Uma questão de identidade institucional

Houve um aspeto do debate que me pareceu insuficientemente explorado: o contexto institucional em que esta discussão acontece.

A Universidade Aberta não é uma universidade qualquer. Nasceu de um compromisso com a abertura: no acesso, nos métodos, na relação com a tecnologia. Foi pioneira no ensino à distância em Portugal, abraçou o digital quando muitas instituições ainda o olhavam com desconfiança. O seu Modelo Pedagógico Virtual assenta em princípios de flexibilidade, interação e autonomia do estudante.

Este legado, parece-me, obriga-nos a resistir a duas tentações simétricas. A primeira é a tentação da proibição: fechar a porta à IA em nome de uma pureza académica que, se olharmos com honestidade, nunca existiu plenamente. A segunda é a tentação da rendição: aceitar acriticamente qualquer uso em nome de uma modernidade mal compreendida.

A via mais coerente com a identidade da UAb seria, creio, uma terceira: integrar estas ferramentas de forma crítica e reflexiva, assumindo que a questão não é evitar a IA, mas aprender a usá-la de forma que potencie o pensamento em vez de o substituir.

É, no fundo, a mesma postura que a universidade sempre adotou perante as tecnologias de escrita e comunicação: não recusar, não capitular, mas apropriar criticamente.

Um fecho em forma de pergunta

Comecei este texto com uma pergunta e gostaria de terminar com outra.

Durante décadas, a pedagogia progressista defendeu que a aprendizagem é um processo social, que o conhecimento se constrói na interação, que pensar é sempre pensar-com-outros. Lévy, Vygotsky, Freire, e tantos outros, todos insistiram que a cognição não é um ato solitário.

Agora surge uma tecnologia que leva esta ideia a um extremo imprevisto: uma máquina com quem podemos, literalmente, pensar em conjunto. Um interlocutor disponível a qualquer hora, que não se cansa, que não julga, que responde instantaneamente.

Será que esta novidade invalida os princípios que defendemos? Ou será que, pelo contrário, os testa de uma forma que nos obriga a levá-los mais a sério?

Não tenho a resposta. Mas suspeito que a forma como respondermos a esta pergunta dirá mais sobre nós do que sobre a tecnologia.


Referências

Lévy, P. (1997). Cibercultura (J. D. Ferreira, Trad.). Instituto Piaget.

Lévy, P. (1994). L’intelligence collective: Pour une anthropologie du cyberspace. La Découverte.

Pereira, A., Quintas-Mendes, A., Morgado, L., Amante, L., & Bidarra, J. (2007). Modelo pedagógico virtual da Universidade Aberta. Universidade Aberta.

UNESCO. (2021). Recomendação sobre a ética da inteligência artificial. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000381137_por

Publicado por Sérgio Trigo

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