Planear no meio da tempestade: reflexão crítica sobre o Plano de Projeto Final

Reflexão sobre a conceção do trabalho final da unidade curricular de Metodologia de Projetos em eLearning, o Plano de Projeto Final (v1.1), intitulado «Literacia em IA Generativa para Docentes de Línguas: Um Problema de Formação em eLearning».
Há trabalhos que se fazem e trabalhos que nos fazem. Ao encerrar o Plano de Projeto Final da unidade curricular de Metodologia de Projetos em eLearning, custa-me distinguir com clareza em qual das categorias este se inscreve. Aquilo que começou como a resposta a um enunciado académico converteu-se, ao longo do semestre, num exercício de disciplina intelectual que alterou a forma como penso a minha própria prática docente. É sobre esse percurso, e não apenas sobre o produto, que esta reflexão se debruça.
A conclusão do Plano de Projeto Final constitui um momento de passagem importante no percurso desenvolvido na unidade curricular de Metodologia de Projetos em eLearning. Mais do que encerrar um documento, esta etapa permitiu transformar uma inquietação profissional, relacionada com a presença crescente da inteligência artificial generativa nas escolas, numa proposta de intervenção educativa delimitada, fundamentada e metodologicamente operacionalizável.
O projeto, intitulado LIA-Línguas: Literacia em IA Generativa para Docentes de Línguas, propõe a conceção de um programa de formação em eLearning dirigido a docentes de línguas do ensino básico e secundário em Portugal. O seu objetivo é desenvolver competências de literacia crítica em inteligência artificial generativa, promovendo práticas pedagógicas éticas, críticas e inovadoras.

Síntese visual do Plano de Projeto Final LIA-Línguas.
Um problema que exige mediação pedagógica
A expansão de ferramentas como o ChatGPT, o Gemini ou o Copilot alterou rapidamente o quotidiano escolar. Ao contrário de outras inovações tecnológicas, cuja adoção dependeu frequentemente de decisões institucionais, equipamentos e infraestruturas, a IA generativa entrou nas escolas através de ferramentas acessíveis, gratuitas e de utilização imediata.
Esta presença não significa, contudo, uma integração pedagogicamente fundamentada. A questão central não reside na disponibilidade das ferramentas, mas na preparação dos docentes para as utilizar, questionar ou recusar de forma consciente. A formação proposta não parte, por isso, de uma perspetiva de adesão inevitável à tecnologia. Parte antes da necessidade de reforçar a autonomia profissional dos docentes perante decisões pedagógicas, éticas e avaliativas cada vez mais complexas.
No caso dos docentes de línguas, esta problemática assume uma especificidade particular. A linguagem é simultaneamente objeto de ensino e meio de operação dos grandes modelos de linguagem. A escrita, a tradução, a reformulação textual, o feedback linguístico e a produção de materiais são práticas centrais no ensino das línguas, mas também tarefas que estas ferramentas conseguem realizar com aparente fluência. Esta convergência obriga a repensar questões como autoria, autenticidade, avaliação, integridade académica e qualidade linguística.
A pergunta que estruturou o projeto foi a seguinte:
De que forma um programa de formação em eLearning pode desenvolver competências de literacia em IA generativa em docentes de línguas do ensino básico e secundário, promovendo práticas pedagógicas éticas, críticas e inovadoras?
Do problema ao diagnóstico
Uma das alterações mais relevantes introduzidas após o feedback recebido consistiu no reforço da componente de diagnóstico. A formulação de um problema de projeto não pode depender apenas da experiência profissional do proponente, por mais próxima que esta seja do contexto a transformar. Exige evidência que permita compreender as necessidades, as práticas, as expectativas e os constrangimentos do público-alvo.
Por essa razão, o diagnóstico articula duas componentes complementares. A primeira consiste numa Revisão Sistemática da Literatura, orientada pelo protocolo PRISMA 2020. Esta revisão procurará identificar evidência sobre programas de formação online dirigidos a docentes, estratégias eficazes de desenvolvimento profissional em eLearning e fatores que facilitam ou dificultam a transferência das aprendizagens para a prática pedagógica.
A segunda componente corresponde a um questionário dirigido a docentes de línguas do ensino básico e secundário. Este instrumento permitirá recolher informação sobre práticas atuais de utilização da IA generativa, perceções de competência, preocupações éticas, necessidades formativas, preferências de formato e condições de contexto que podem influenciar a participação e a transferência das aprendizagens. A meta definida é obter, pelo menos, 100 respostas, assumindo-se claramente o caráter não probabilístico e exploratório da amostra.

Fluxograma PRISMA 2020 previsto para a seleção dos estudos da Revisão Sistemática da Literatura.
Este aprofundamento metodológico permitiu tornar mais explícita uma ideia decisiva: o programa apresentado não constitui um produto fechado ou uma solução previamente validada. Trata-se de uma proposta de conceção que será refinada a partir das evidências recolhidas no diagnóstico. A revisão e o questionário terão, assim, uma função efetiva na tomada de decisões de design, e não apenas uma função decorativa de fundamentação.
Referenciais para uma literacia crítica
A revisão do plano reforçou também a articulação entre os referenciais teóricos mobilizados. O DigCompEdu constitui uma referência central para a compreensão das competências digitais dos educadores. As orientações da UNESCO sobre inteligência artificial generativa na educação complementam esse quadro, sobretudo nas dimensões de ética, proteção de dados, validação crítica de outputs e agência humana.
O modelo TPACK permite, por sua vez, evitar uma abordagem exclusivamente tecnológica. A integração significativa da IA generativa não resulta da simples aprendizagem de ferramentas, mas da articulação situada entre conhecimento tecnológico, pedagógico e disciplinar. Para docentes de línguas, isto implica partir de situações concretas, como a avaliação da escrita, a criação de materiais, o feedback corretivo, a autoria ou a autenticidade comunicativa.
O Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta oferece os princípios organizadores da proposta em eLearning: aprendizagem centrada no estudante, flexibilidade, interação e inclusão digital. Estes princípios são especialmente relevantes para um público adulto, profissionalmente ativo e geograficamente disperso.
A ideia de literacia crítica em IA generativa adotada no projeto ultrapassa, portanto, a proficiência instrumental. Não se trata apenas de saber formular instruções ou utilizar uma aplicação. Trata-se de compreender, de forma funcional, como os modelos produzem respostas, reconhecer limites e enviesamentos, avaliar criticamente os seus outputs e decidir de forma fundamentada quando a sua utilização é pedagogicamente adequada, e quando não o é.
O programa LIA-Línguas
O programa foi estruturado como uma formação de 25 horas, integralmente online, a decorrer em oito semanas e suportada pela plataforma Moodle. A proposta inclui uma semana inicial de ambientação e cinco módulos formativos progressivos.
A semana de ambientação destina-se à familiarização com o ambiente virtual, à apresentação dos participantes, à explicitação das regras de interação e à realização de um diagnóstico inicial. Seguem-se cinco módulos: fundamentos de IA generativa, análise crítica de outputs, design de atividades, avaliação e integridade, e ética e projeto final.
Esta sequência procura assegurar uma progressão que parte da compreensão dos fundamentos e dos limites da IA generativa, avança para a análise crítica de casos e culmina na conceção de uma proposta pedagógica situada no contexto profissional de cada participante. O projeto final não é pensado como uma tarefa meramente avaliativa, mas como um instrumento de transferência para a prática.

Arquitetura geral prevista para o programa LIA-Línguas.
A opção por atividades baseadas em problemas, análise de casos, discussão entre pares e produção de artefactos pedagógicos procura respeitar a natureza profissionalizante da formação. O propósito não é formar docentes para usar IA generativa de forma indiscriminada, mas para fundamentar decisões pedagógicas contextualizadas.
Avaliação e sustentabilidade
A avaliação prevista combina diferentes momentos e fontes de informação. Inclui diagnóstico inicial, acompanhamento formativo ao longo dos módulos, avaliação dos produtos desenvolvidos pelos participantes e apreciação da satisfação e perceção de utilidade da formação.
A transferência para a prática constitui uma preocupação central. Por isso, o plano prevê a constituição de uma comunidade de prática que possa prolongar a interação para além do período formal de formação. Esta dimensão é particularmente relevante num domínio em rápida transformação, no qual os conhecimentos técnicos, os enquadramentos institucionais e as práticas pedagógicas exigem atualização contínua.
A sustentabilidade do projeto foi pensada em três planos. No plano pedagógico, a formação assenta em recursos reutilizáveis, atividades autênticas e colaboração entre participantes. No plano técnico, privilegia a utilização de ferramentas acessíveis e da infraestrutura Moodle. No plano institucional, prevê a articulação com centros de formação de associação de escolas, associações profissionais e redes de docentes.
O que mudou no percurso
A elaboração deste plano confirmou que planear um projeto educativo não consiste em antecipar todas as respostas. Consiste, antes, em construir condições para que as decisões sejam tomadas de forma progressivamente mais fundamentada.
O feedback recebido ao longo da unidade curricular contribuiu para melhorar a delimitação do público-alvo, aprofundar a justificação da especificidade dos docentes de línguas, tornar mais visível a relação entre diagnóstico e design, clarificar os indicadores de avaliação e reforçar a coerência entre os referenciais teóricos e as opções pedagógicas.
A principal aprendizagem deste processo reside, talvez, na necessidade de resistir a duas tentações frequentes perante a IA generativa na educação: o entusiasmo acrítico e o recuo defensivo. Entre a promessa de transformação automática e o medo da substituição docente, importa preservar aquilo que continua a ser central: a capacidade dos professores para interpretar contextos, avaliar criticamente recursos, tomar decisões fundamentadas e criar condições para aprendizagens significativas.
O plano agora concluído não representa o fim do projeto. Representa um ponto de partida mais sólido para a sua fase seguinte: a realização do diagnóstico, o refinamento do design e a futura implementação da proposta junto de docentes de línguas.
Documento completo
O Plano de Projeto Final, incluindo a fundamentação teórica, o protocolo da Revisão Sistemática da Literatura, o plano de diagnóstico, a arquitetura pedagógica, o cronograma, a avaliação e os anexos metodológicos, encontra-se disponível para consulta e descarga no ficheiro PDF abaixo.
Referências
Pereira, A., Quintas-Mendes, A., Morgado, L., Amante, L., & Bidarra, J. (2007). Modelo pedagógico virtual da Universidade Aberta: Para uma universidade do futuro. Universidade Aberta.
Redecker, C. (2017). European framework for the digital competence of educators: DigCompEdu. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2760/159770
Selwyn, N. (2019). Should robots replace teachers? AI and the future of education. Polity Press.
UNESCO. (2023). Guidance for generative AI in education and research. UNESCO.



